terça-feira, 15 de junho de 2021

Tirando as teias de aranha...

É engraçado como as pessoas nos pedem por respostas que não querem ouvir: Perguntam por uma opinião sincera, mas esperam ouvir um elogio. Nos perguntam como estamos, mas só precisamos responder com um "Bem, e você?". Nos perguntam se temos planos, querendo que estejamos disponíveis.

Da mesma forma, a coisa que querem de nós, muitas vezes é diferente da que queremos dar: Querem amizade quando queremos dar amor. Querem que sigamos seus conselhos quando só queremos desabafar. Querem.

É engraçado como dizemos que estamos tristes e nos dizem que não podemos estar tristes porque temos corpos perfeitos e saudáveis enquanto existem doentes, amputados, deficientes... Estamos fartos enquanto muitos morrem de fome pelo mundo. Estamos em paz enquanto existem guerras no mundo. Paz... Hunf!

É estranho andar entre as pessoas e ver que elas são diferentes de você. Não falo da diversidade humana... Falo da singularidade. Humanos existem de todos os tipos! E a cada dia inventam mais. Chega a me irritar, as vezes. Quando eu era criança, se usava muito o termo "raça humana". Mas este termo já não existe mais. Não faz sentido no contexto do século XXI. Hoje a humanidade é uma espécie, e a raça é definida pela cor da pele, dos olhos, a quantidade e a qualidade dos cabelos... Se existe uma "raça humana", acho que os termos corretos pro povo que acha que são diferentes seria "corista"... Talvez "pelista"? "Olhista"? "Estúpido"?

No fim são todos iguais. Falam idiomas diferentes, mas existem em grupos. Conseguem se comunicar entre si. Quando eu era mais novo, sonhava em poder me comunicar. Por causa desse desejo, já estudei português, inglês, espanhol, francês, italiano, Libras, japonês e coreano. Mas todos esses idiomas eu desisti de aprender em algum momento. Talvez porque percebi que o meu problema de comunicação não tem relação com o idioma. Meu problema é que eu sou diferente. Eu não pertenço ao grupo. Eu não os entendo, e portanto, não consigo ser entendido.

Não estou dizendo que não tive companhia todo esse tempo! Ah, não! Tenho pais, irmãos, primos, amigos, colegas... Já tive esposa... Acho que desenvolvi minimamente ... suficientemente minhas habilidades sociais. Creio até que posso manter um diálogo inteligível por algum tempo. Consigo transmitir informações coerentes, embora nem sempre claras. Consigo compreender algumas nuances do trato humano. Mas isso não me torna um membro do grupo.

Então continuo existindo. Interagindo. Até convivendo. Mas sem atender a expectativas, enquanto diminuo cada vez mais as minhas próprias. Porque as palavras que escrevi em segredo, muitos quiseram ler, mas as palavras que eu disse em voz alta, ninguém quis ouvir. E porque quando a porta esteve aberta ninguém entrou, mas quando eu a fechei, começaram a bater. A direção pra onde aponto ninguém olha, mas quando sigo por ela me julgam. A fé que eu perdi me é cobrada, mas a fé que depositam em mim se baseia nas limitações de cada um.

Não sei por quê alguém leria o que escrevo aqui... Não vão me entender mesmo... Mas fiquem a vontade pra interpretar como quiserem. E se houver algo que eu possa desejar disso, é que terminem a leitura melhor do que começaram. Se não foi assim, não se preocupe. Apenas aconteceu que mais uma vez me leram errado.

domingo, 26 de julho de 2020

Desculpa se eu não fiquei triste com as centenas de milhares de mortes por todo o mundo. Só acontece que eu já era triste antes de muitas dessas pessoas nascerem.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Era uma vez um reino.

Esse reino possuía imensas muralhas em todo o entorno, que mantinha seguros todos que moravam ali. Era como um imenso círculo de pedras e jóias. Um misto de ostentação e segurança. As pessoas que viam o reino de fora tinham todo tipo de sentimento ao verem aquele muro: admiração, inveja, espanto, curiosidade...

O fato é, que esse imenso muro não tinha falhas. E nem portas. Ninguém sabia como entrar nesse reino, mas todos que estavam lá dentro não tinham o desejo de sair. Vez ou outra, uma pessoa simplesmente surgia lá dentro, e era como se sempre tivesse morado alí. Tinha casa, sabia andar pelas ruas das vilas, sabia onde podia ou não entrar...

No centro desse reino, ocupando o que seria talvez um terço de todo o terreno, sempre houve um pequeno castelo. Olhando pelo lado de fora, ele não chamava atenção. Talvez tenha sido construído assim de propósito, ou talvez tenha sido construído do jeito errado, mas o fato é que poucas pessoas olhavam para ele, e menos ainda tinham vontade de entrar. E, de fato, não é qualquer pessoa que estaria preparado para o que reside alí.

Esse castelo não é apenas a residência do rei, mas também é onde ele guarda tudo de que tem mais orgulho, vergonha, medo... E pra proteger tudo que guarda ali, existe um labirinto tão elaborado, e vivo, que mesmo o rei se perde ao andar por ele. Se separando hora com o que procura, hora com o que se mete em seu caminho.

Tudo parece perfeitamente normal nesse reino,  e todos seguiam suas vidas, mas havia um segredo. Algo que, por mais grandioso que fosse, era ignorado por todos. Num dos cantos desse reino, havia uma mancha bem pequena. Um pequeno poço, do qual ninguém tomava conhecimento e cujo conteúdo ninguém sabe se inclui água.

Mas esse pequeno poço foi crescendo e se alargando. Ele foi tomando espaço dentro do reino e crescendo e se alastrando como se fosse uma praga. As pessoas que andavam pelo reino foram se afastando do poço, mas não percebiam o que acontecia. Logo uma pequena cerca de madeira foi colocada ao longo da beira do poço, mas ninguém via que o buraquinho que já foi pequeno, agora tomava metade do reino. Na verdade, olhando de cima, aquele reino que sempre foi um círculo imenso, parecia agora uma lua minguante, à medida que a sombra cobria o chão do reino.

Alguns anos se passaram, e as pessoas continuam a viver suas vidas, já que por decreto do rei, nada falta para nenhuma pessoa dentro do reino. E as pessoas continuam a não ver que o reino onde moram está sumindo, tomado por uma sombra terrível. E tudo que havia no lugar onde a sombra se espalhou sumiu. Tudo com uma excessão: o castelo do rei ainda está lá. Como que flutuando sobre um imenso buraco sem fundo. Um castelo bem visível, sob algo que não permite a luz passar. E ninguém se deu conta que o rei, a quem todos que moram no reino já disseram amar, está preso no seu castelo, sem rota para sair dele.

Do ponto de vista do rei, ele tem três coisas para ver todos os dias. Ele pode olhar para as memorias, para o que sobrou de seus planos, para os medos e para as ansiedades dentro do castelo. Ele pode olhar para as pessoas felizes ao longe, assistindo as vidas que continuam como se ele nunca tivesse sumido.

E ele pode olhar para aquele buraco sem fim. Aquela escuridão. Aquele desespero. A solidão que o cerca. E deve agora lidar com o desejo de descer e se deixar abraçar pelo esquecimento. Sabendo que quando ele enfim sumir, as pessoas vão continuar suas vidas como se ele nunca tivesse passado pelas vidas delas.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Solidão não é quando não temos pessoas ao nosso lado. É quando existe um vazio que as pessoas que amamos não podem preencher. Uma dor que queima constantemente nossa carne e que, ainda assim nos faz sentir frios. É um lago de piche no qual afundamos sem precisar de apneia. É desejar a asfixia do afogamento e só sentir nos pulmões, o ar.

Solidão não é sentir. Solidão é ser.

sábado, 4 de abril de 2020

De algumas histórias, tudo o que queremos é chegar ao fim delas.